Capítulo 1 — O Contrato
O contrato tinha onze páginas.Valentina Soares leu cada uma delas três vezes antes de assinar — não porque tivesse dúvida sobre o que estava fazendo, mas porque havia aprendido, nos vinte e sete anos que tinha, que a diferença entre decisão boa e decisão ruim raramente estava no documento em si. Estava nos detalhes que o documento não mencionava. O documento dizia o seguinte, em linguagem jurídica que ela havia pedido para o advogado traduzir em linguagem humana:
Valentina Soares e Henrique Vasconcellos concordavam em se casar por um período mínimo de dois anos. Durante esse período, manteriam aparência pública de casal. Ao final dos dois anos, divorciariam de comum acordo. Em troca, Valentina receberia acesso ao fundo de investimento que havia pertencido ao avô dela e que o conselho de família havia bloqueado com a exigência de que ela se casasse antes dos trinta anos — cláusula ridícula de testamento feito em 1987 que ela não tinha como contestar juridicamente sem gastar mais do que o fundo valia.
Henrique, por sua vez, precisava de esposa para satisfazer a condição imposta pelo pai para a transferência de quarenta por cento das ações da Vasconcellos Industries. O pai tinha setenta e dois anos, problema cardíaco e a convicção inabalável de homem de outra geração de que homem solteiro não era homem de confiança para dirigir empresa. Dois problemas. Uma solução inconveniente.Valentina assinou na linha pontilhada.
O Noivo
Ela havia conhecido Henrique Vasconcellos duas vezes antes de assinar o contrato. A primeira vez foi num evento de negócios onde ele havia chegado vinte minutos atrasado, cumprimentado todo mundo no mesmo tom uniforme de quem cumpre protocolo sem nenhum interesse genuíno, e saído antes do jantar ser servido. Ela havia notado porque a saída dele havia criado um pequeno burburinho entre as mulheres ao redor — alto, discretamente bem vestido, com aquela qualidade específica de homem que não precisa se esforçar para ser notado e claramente preferia não ser.
A segunda vez foi quando o advogado da família dela havia ligado dizendo que havia uma proposta. Ela havia ido ao escritório de Henrique esperando encontrar o homem do evento — distante, protocolar, eficiente. Encontrou alguém ligeiramente diferente. Ele havia se levantado quando ela entrou — detalhe que ela notou porque poucos homens ainda faziam isso — e oferecido café antes de qualquer outra coisa. Depois havia sentado do lado oposto da mesa e dito, sem rodeio:— Eu sei como isso parece. Quero que você saiba que entendo se a resposta for não.
Ela havia ficado um momento em silêncio.— Por que você não simplesmente encontra alguém disposto a casar de verdade ?— Porque não tenho tempo para construir relacionamento que satisfaça meu pai e ainda assim seja honesto com a outra pessoa. — Pausa. — E porque prefiro acordo claro a situação ambígua. Era a resposta mais honesta que ela havia recebido de qualquer homem em muito tempo.
— Dois anos — disse ela.— Dois anos.— Quartos separados.— Obviamente.— E eu preciso de flexibilidade para manter minha agenda profissional. Não posso cancelar reuniões para aparecer em eventos sociais toda semana.— Eu definiria o mesmo para mim.Ela havia olhado para ele por um momento mais longo do que o necessário.— Então temos um acordo.
A Cerimônia
O casamento aconteceu num sábado de março com quarenta e dois convidados — o mínimo que os respectivos advogados haviam considerado necessário para manter a aparência convincente. Valentina usou vestido branco simples que havia comprado sem gastar mais do que o razoável, porque gastar muito em vestido para casamento que duraria dois anos parecia irônico de uma forma específica que a incomodava.
Henrique chegou exatamente no horário. Ela havia esperado que chegasse atrasado como havia chegado no evento onde o conheceu pela primeira vez — mas ele estava lá quando ela chegou com o pai, de terno escuro, com expressão de homem que está fazendo o que precisa ser feito com a dignidade disponível para situações assim. Quando o juiz perguntou se ela o aceitava, ela disse sim olhando para um ponto específico na parede atrás da cabeça do juiz. Depois se virou para assinar o documento e encontrou os olhos de Henrique.
Ele a estava olhando com uma expressão que ela não conseguiu ler completamente — e isso a incomodou porque ela era muito boa em ler expressões. Assinou. Ele assinou. O juiz declarou o casamento válido.Fim da primeira parte.
A Casa
A casa de Henrique era exatamente o que ela havia imaginado: grande, bem decorada por alguém que claramente havia contratado um decorador de qualidade e depois vivido no espaço sem realmente habitá-lo. Tudo estava no lugar certo. Nada estava no lugar errado. Era o apartamento de alguém que passou mais tempo em reuniões do que em casa.Ele mostrou o quarto dela — suite com banheiro próprio, closet vazio esperando suas roupas — e disse que o café da manhã era servido às sete e meia se ela quisesse, ou ela poderia usar a cozinha quando quisesse.
— Tenho reunião às oito amanhã — disse ela.— Eu também. Um silêncio que não era desconfortável — era o silêncio de duas pessoas que ainda estavam calculando a distância adequada.— Boa noite, Valentina.— Boa noite. Ela entrou no quarto, fechou a porta e ficou parada no meio do espaço por um momento.Dois anos, pensou. Eu consigo dois anos.Do lado de fora, ouviu os passos de Henrique se afastando pelo corredor.
ficou pensando, mais do que havia planejado, naquela expressão que ele havia tido quando a olhou antes de assinar.
Capítulo 2 — Quando o Acordo Começa a Rachar
O primeiro evento público foi um jantar de negócios três semanas depois do casamento. Valentina havia tratado como tratava qualquer compromisso profissional: escolheu a roupa adequada, preparou o que sabia sobre os outros convidados, chegou no horário.
O que não havia preparado era para a forma como Henrique a apresentou. Não foi a apresentação protocolar que ela havia esperado — esta é minha esposa Valentina, ela trabalha com… — foi algo mais natural do que isso. Ele disse o nome dela com a mesma inflexão que usava para qualquer outro assunto importante, colocou a mão nas suas costas num gesto que parecia completamente involuntário, e quando um dos convidados fez uma piada sobre recém-casados ele havia sorrido de um jeito que ela não havia visto antes.Era convincente, ela pensou. Ele era muito bom nisso.
Mas durante o jantar, quando ela estava conversando com a esposa de um dos sócios sobre um projeto de arquitetura sustentável que havia sido tema da semana nos noticiários de negócios, percebeu que Henrique havia parado de conversar com o homem ao seu lado e estava prestando atenção no que ela dizia. Não de forma óbvia. Da forma de quem está fingindo estar em outra conversa mas na prática está ouvindo outra. Quando voltaram para casa, no carro, ele disse:— Você conhece o projeto da Barra Funda ?— Li sobre ele. Por quê ?
— Estamos considerando investir no terreno ao lado. Seria útil conversar com você sobre o impacto no entorno. Ela o olhou.— Você quer minha opinião profissional.— Você claramente sabe do que está falando.Era um elogio direto sem qualificação. Ela não estava acostumada com isso vindo de homem nenhum, muito menos de homem com quem havia casado por contrato.— Posso te mandar o relatório que li — disse ela.— Agradeço. Silêncio pelo resto do caminho.
Mas quando chegaram e ele foi para o escritório e ela para o quarto, ela ficou alguns minutos parada com o telefone na mão sem realmente olhar para a tela. Cuidado, ela disse para si mesma. Dois anos. Não complica.
A Primeira Brecha
Foi uma terça-feira comum que criou a primeira brecha no acordo. Valentina havia chegado em casa às nove da noite depois de reunião que havia estendido além do previsto, estava com dor de cabeça e havia esquecido de comer desde o almoço. Entrou na cozinha esperando encontrá-la vazia — Henrique normalmente jantava antes das oito. Ele estava lá .Não jantando — cozinhando. De camisa com as mangas dobradas, de costas para ela, com uma frigideira no fogo e a concentração de alguém que estava fazendo algo que exigia atenção. Ela parou na entrada da cozinha.
Ele se virou, avaliou em dois segundos a forma como ela estava — e ela percebeu que ele havia notado a dor de cabeça, o cansaço e a fome nessa ordem porque o olhar seguiu exatamente essa sequência.— Senta — disse ele.— Henrique, você não precisa —— Senta, Valentina.Havia algo no tom — não ordem, não pedido, algo no meio que não deixava espaço para negociação sem criar uma discussão que ela não tinha energia para ter. Ela sentou.
Dez minutos depois havia um prato na sua frente — massa simples, molho de tomate fresco, manjericão — e um copo de água com limão que ela não havia pedido mas que era exatamente o que queria. Ela olhou para o prato. Olhou para ele.— Você cozinha.— Minha avó ensinou. — Ele se sentou do lado oposto com o próprio prato. — Come antes de explicar por que chegou tão tarde.Ela comeu. Depois contou sobre a reunião. Ele fez perguntas que demonstravam que havia entendido o contexto sem que ela precisasse explicar o básico.
Ficaram na cozinha por uma hora e vinte minutos. Quando ela foi para o quarto, parou no corredor e ficou parada por um momento mais longo do que havia planejado. Dois anos, pensou novamente. Mas dessa vez o pensamento tinha um peso diferente. Não o peso de prazo a ser cumprido. O peso de algo que estava começando a parecer curto demais.